Trama de portais, 2025
Fragmentos de tecidos e rendas diversas, aquarela e tinta acrílica 
100 x 70 cm

Na obra Trama de portais, a matéria carrega o tempo. Rendas, tecidos, botões, costuras e texturas que evocam o íntimo, o doméstico e o esquecido, são aqui reconvocadas em camadas sobrepostas. Os fragmentos têxteis pintados em diversas camadas de aquarela e tinta acrílica compõem uma superfície onde o olhar atravessa fendas, por bordas soltas, por pequenas brechas que funcionam como portais. Cada recorte é uma passagem, um desvio, uma fresta por onde o passado se entrelaça ao que ainda não chegou. São vestígios do cuidado, da matéria doméstica, daquilo que sempre foi considerado pequeno demais para durar e que, no entanto, persiste.
O gesto de cortar, costurar, colar, pintar, sobrepor e não esconder revela uma arqueologia de afetos, silenciosa e insurgente. Cada tecido é uma narrativa interrompida, um eco que insiste. A obra se expande em múltiplas direções, convidando quem vê a ficar com a ambiguidade, com o entrelaçamento, com o tempo suspenso das coisas que ainda insistem em existir.
Inspirada pela obra Ficar com o problema, de Donna Haraway, Weigand escolhe não apagar os conflitos, falhas e restos. Ao contrário: ela os torna visíveis, matéria de convivência. Como propõe Haraway, é preciso aprender a habitar o mundo junto com suas crises, seus enredamentos, suas relações tentaculares, “fazer parentes” mesmo entre o que parece desconexo, em ruína, ou entre coisas que não nasceram juntas.

As tramas dessa obra não se organizam em lógica linear, mas em justaposições orgânicas, onde o passado e o futuro se entrelaçam no presente da superfície. Os tecidos não são ornamento, são pele de memória. As fendas, costuras e recortes não escondem, mas conectam. O emaranhado é bem-vindo, e os restos, tecidos, ideias, histórias, não são descartados, mas acolhidos como parte do que ainda pode ser tecido.
Neste trabalho, há um convite sutil a escutar o que ficou. A obra é, assim, um espaço de escuta e de permanência, um lugar onde as camadas da vida, mesmo em sua fragilidade, continuam a se tocar. 
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